Odontologia do Sono: Quando o Dentista Trata Seu Ronco

A odontologia do sono é uma especialidade que vem ganhando destaque no Brasil e no mundo. Poucos sabem, mas o dentista pode ser peça fundamental no tratamento de distúrbios respiratórios do sono, como o ronco e a apneia obstrutiva do sono (AOS). Através de aparelhos intraorais personalizados, é possível melhorar significativamente a qualidade do sono e, consequentemente, a saúde geral do paciente.

Estima-se que 30% a 40% dos adultos brasileiros ronquem habitualmente, e cerca de 33% dos homens e 17% das mulheres acima de 40 anos tenham algum grau de apneia do sono. Muitos convivem com o problema sem diagnóstico nem tratamento.

O Que É Apneia Obstrutiva do Sono

A apneia obstrutiva do sono é uma condição em que as vias aéreas superiores colapsam repetidamente durante o sono, interrompendo a respiração por períodos de 10 segundos ou mais. Esses episódios — chamados de apneias — podem ocorrer dezenas ou centenas de vezes por noite, sem que a pessoa perceba.

Classificação por gravidade

A gravidade é medida pelo IAH (Índice de Apneia e Hipopneia) — número de eventos por hora de sono:

  • Leve: 5 a 14,9 eventos/hora
  • Moderada: 15 a 29,9 eventos/hora
  • Grave: 30 ou mais eventos/hora

Consequências da apneia não tratada

A apneia do sono não é apenas "roncar alto". As consequências são sérias:

  • Cardiovasculares: Hipertensão arterial, arritmias, infarto, AVC
  • Metabólicas: Resistência à insulina, diabetes tipo 2, ganho de peso
  • Neurológicas: Sonolência diurna excessiva, déficit de atenção, perda de memória
  • Psicológicas: Depressão, irritabilidade, ansiedade
  • Sociais: Acidentes de trânsito e de trabalho por sonolência
  • Redução da expectativa de vida: Apneia grave não tratada está associada a maior mortalidade

Fatores de risco

  • Obesidade (principal fator)
  • Sexo masculino
  • Idade acima de 40 anos
  • Circunferência cervical aumentada (> 40 cm)
  • Mandíbula retrognata (posicionada para trás)
  • Amígdalas e adenoides aumentadas
  • Uso de álcool e sedativos antes de dormir
  • Tabagismo

Como o Dentista Identifica o Problema

O dentista capacitado em odontologia do sono pode identificar sinais e fatores de risco durante consultas de rotina:

Sinais intraorais

  • Marcas de dentes na língua (macroglossia relativa)
  • Palato ogival (céu da boca alto e estreito)
  • Úvula alongada
  • Amígdalas hipertrofiadas
  • Retroposição mandibular
  • Desgaste dental por bruxismo (frequentemente associado à apneia)
  • Língua volumosa

Questionários de triagem

  • Epworth: Avalia sonolência diurna (pontuação acima de 10 é sugestiva)
  • STOP-Bang: Avalia risco de apneia (pontuação acima de 3 indica alto risco)
  • Berlin: Questionário de triagem para apneia

Se identificados fatores de risco, o dentista encaminha para o médico do sono, que solicitará a polissonografia — o exame padrão-ouro para diagnóstico.

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Aparelhos Intraorais: Como Funcionam

Os aparelhos intraorais para ronco e apneia são dispositivos personalizados que o paciente usa durante o sono. Existem dois tipos principais:

Aparelhos de avanço mandibular (AAM)

São os mais utilizados e com maior evidência científica. Funcionam avançando suavemente a mandíbula para frente durante o sono, o que:

  • Aumenta o espaço da via aérea posterior
  • Tensiona os músculos da faringe, impedindo o colapso
  • Projeta a língua para frente junto com a mandíbula
  • Reduz ou elimina o ronco e as apneias

Os aparelhos modernos são compostos por duas placas (superior e inferior) conectadas por mecanismo de avanço ajustável (titulável). Isso permite ajustar gradualmente a posição mandibular até encontrar o ponto ideal.

Aparelhos retentores de língua

Menos comuns, são indicados para pacientes desdentados ou com problemas na ATM que impedem o avanço mandibular. Funcionam puxando a língua para frente por sucção.

Indicações e Contraindicações

Quando o aparelho intraoral é indicado

  • Ronco primário (sem apneia): Primeira linha de tratamento
  • Apneia leve a moderada: Tratamento eficaz e bem aceito
  • Apneia grave: Quando o paciente não se adapta ao CPAP (aparelho de pressão positiva)
  • Terapia combinada: Em associação com CPAP em casos graves
  • Viagens: Alternativa portátil ao CPAP

Contraindicações

  • Doença periodontal avançada (dentes com mobilidade)
  • Número insuficiente de dentes para retenção do aparelho
  • Disfunção severa da ATM (articulação temporomandibular)
  • Apneia grave como tratamento único (preferir CPAP)
  • Apneia central (não obstrutiva)

O Processo de Tratamento

1. Diagnóstico médico

O tratamento começa com o médico do sono:

  • Polissonografia (exame do sono)
  • Diagnóstico e classificação da gravidade
  • Prescrição do tratamento (aparelho intraoral ou CPAP)

2. Avaliação odontológica

O dentista especialista avalia:

  • Condição dental e periodontal
  • Saúde da ATM
  • Tipo de mordida e oclusão
  • Movimentos mandibulares
  • Quantidade de avanço necessária

3. Moldagem e confecção

  • Moldagens digitais ou convencionais das arcadas
  • Registro da mordida na posição de avanço
  • Confecção do aparelho em laboratório especializado (7 a 15 dias)

4. Instalação e titulação

  • Instalação do aparelho e orientações de uso
  • Titulação: Ajustes graduais do avanço mandibular ao longo de semanas até encontrar a posição ideal que elimina ronco e apneias
  • Controle com polissonografia de acompanhamento para confirmar eficácia

5. Acompanhamento

  • Consultas regulares (a cada 3-6 meses)
  • Monitoramento da saúde dental e da ATM
  • Ajustes quando necessário
  • Controle da oclusão (mordida)

Eficácia e Resultados

Os resultados dos aparelhos intraorais são bem documentados:

  • Ronco: Redução ou eliminação em 80-90% dos casos
  • Apneia leve: Sucesso (IAH < 5) em 60-80% dos casos
  • Apneia moderada: Sucesso em 50-70% dos casos
  • Apneia grave: Sucesso variável (30-50%), geralmente como complemento ao CPAP

A adesão ao tratamento é significativamente maior que ao CPAP — cerca de 80% dos pacientes usam o aparelho regularmente, contra 50-60% do CPAP.

Efeitos Colaterais

Como todo tratamento, os aparelhos intraorais podem ter efeitos colaterais:

Temporários (primeiras semanas):

  • Salivação excessiva
  • Boca seca pela manhã
  • Desconforto nos dentes e gengiva
  • Leve dor na ATM

Possíveis a longo prazo:

  • Alterações na mordida (pequenas mudanças na posição dos dentes)
  • Desconforto persistente na ATM em pacientes predispostos
  • Necessidade de exercícios matinais para "destravar" a mandíbula

Esses efeitos são monitorados nas consultas de acompanhamento e geralmente são manejáveis.

Custos do Tratamento

Os valores dos aparelhos intraorais variam conforme o tipo e a região:

TipoValor
Aparelho de avanço mandibular nacionalR$ 2.500-5.000
Aparelho de avanço mandibular importadoR$ 5.000-8.000
Aparelho retentor de línguaR$ 1.500-3.000

O custo inclui moldagens, confecção, instalação e acompanhamento inicial. Consultas de titulação e acompanhamento podem ter custo adicional.

Alguns planos de saúde cobrem o aparelho quando prescrito por médico do sono. Consulte nosso artigo sobre planos odontológicos para entender as coberturas.

CPAP vs. Aparelho Intraoral

CaracterísticaCPAPAparelho Intraoral
Eficácia (apneia grave)Superior (90%+)Inferior (30-50%)
Eficácia (apneia leve)AltaAlta (60-80%)
AdesãoBaixa (50-60%)Alta (80%+)
PortabilidadeDifícilFácil
RuídoModeradoSilencioso
CustoR$ 3.000-8.000R$ 2.500-8.000
ManutençãoTroca de máscaras/filtrosConsultas periódicas

Perguntas Frequentes

O aparelho intraoral elimina completamente o ronco?

Na maioria dos casos, sim. Estudos mostram que o aparelho de avanço mandibular reduz significativamente ou elimina o ronco em 80% a 90% dos pacientes. A eficácia depende da causa do ronco e do grau de avanço mandibular alcançado. A titulação gradual permite otimizar o resultado.

Posso usar aparelho intraoral se tenho poucos dentes?

Depende. O aparelho precisa de dentes suficientes para se apoiar — geralmente pelo menos 8 a 10 dentes bem distribuídos em cada arcada. Pacientes com próteses fixas (implantes) podem usar o aparelho. Pacientes com próteses removíveis totais geralmente não são candidatos ao aparelho de avanço, mas podem usar o retentor de língua.

Quanto tempo leva para o aparelho fazer efeito?

O efeito sobre o ronco costuma ser imediato desde a primeira noite de uso. A eficácia plena sobre a apneia é alcançada após o período de titulação, que leva de 4 a 8 semanas de ajustes graduais. A polissonografia de controle é realizada após esse período para confirmar os resultados.

O tratamento com aparelho intraoral é para a vida toda?

Na maioria dos casos, sim, pois a apneia é uma condição crônica. O aparelho precisa ser usado todas as noites. Se o paciente perder peso significativamente ou tratar fatores contribuintes (como amígdalas aumentadas), a necessidade pode ser reavaliada. O aparelho tem vida útil média de 3 a 5 anos, precisando ser substituído após esse período.